sábado, 3 de dezembro de 2011

Conto: "Sobre Saltos Altos"





Mais um dia eu acordava com o peso de um mundo sobre minhas costas, abaixo de mim só as sandálias. Todos estavam sobre mim e eu estava apenas sobre saltos, talvez altos demais. Decidi pensar sobre tudo isso, mas pensar sobre não é estar sobre, é estar abaixo, pois, quando se pensa em tudo na vida o peso dos problemas é maior que não se pode agüentar. Decidi pensar sobre isso e sorri, para disfarçar, estava sobre saltos altos e meu pé já doía, como se a cada passo sobre o salto, sobre mim fosse atirado um peso a mais.

Estava frio, decidi colocar o sobretudo. Peguei a bolsa, a carteira, o que podia carregar e um livro. Há tempos eu não lia. O livro era escrito por uma mulher e falava sobre uma mulher, era pequeno daria pra lê-lo na viagem para o trabalho. E se eu não terminasse de ler a historia sobre essa mulher teria a viagem de volta para acabar.

Nuvens no céu sobre mim.

Enquanto esperava o trem sobre os saltos, as pessoas conversavam sobre coisas fúteis, como o capítulo da novela de ontem. Vi sobre os trilhos o trem vindo em nossa direção, servindo para direcionar a nós que estamos sem direção, e ele também sempre na mesma lida, vai e volta, sobre os trilhos, cumprindo seu destino, levando sobre ele a carga de tantos outros, e esses outros que levam outra carga maior. E mais inferior ainda os trilhos que devem aguentar o trem. A ordem então é a seguinte, o trilho que aguenta o trem, depois vem o trem que aguenta meus saltos e os saltos que agüentam a mim e toda a minha carga. Eu que aguento as cargas da vida.

Quando entrei no trem não havia lugares para mim, todos estavam sobre seus lugares, e eu sobre meus saltos e sobre nada e sobre mim estava tudo. Decidi ler o livro que havia trazido, era de uma mulher e era sobre uma mulher. O título me dizia “A Hora da Estrela”, e eu que nunca tive minha hora de estrela comecei a ler na inveja de que a personagem daquela história tivesse um destino de alegrias e contentamentos.

Foi de terrível surpresa quando percebi que a Macabéa, assim ela se chamava, tinha uma vida comparada à minha, uma eterna espera por algo, uma vida triste, já entregue. Ao menos ela não precisava usar saltos. Doía cada vez mais, e ele teria que me agüentar mais um dia inteiro e mais o resto da semana inteira. Às vezes sinto pena daqueles saltos tão finos, que agüentam todo meu peso sobre eles, talvez um dia se eu fosse uma autora escreveria uma história sobre eles. Que bobagem. Eu uma escritora! Já escrevo por demais no escritório e não teria criatividade o bastante para sentar-me e escrever uma história. Penso tantas besteiras.

Penso até sobre os poucos namorados que tive. Que tiveram proveito maior com outras, ou qualquer outra coisa. Mas um deles é aquele que fica sobre os outros. Aquele que fica um pouco mais na lembrança, aquele que superou os outros em tudo, que trazia algo feliz, que dava segurança, aquele que tanto prometera outrora, onde estará ele? Não estará sobre saltos decerto. Se foi. Partiu. Como tudo na vida se parte, em milhões de pedaços ou em um pedaço só, mas já divide por completo a vida, como se eu tivesse caído do salto, como se ele fosse um penhasco. Mas esta história não é sobre amor, na verdade não é uma história sobre nada, pois, não é uma história, são só pensamentos que me perseguem na minha viagem sobre meus saltos.

E sobre tanta coisa que penso nada é tão pesado quanto a rotina, as contas, a casa suja, o escritório, o patrão, tudo isso está sobre mim e suspenso por dois pares de saltos que devem me erguer todo dia se eu ousar cair. Afinal é pra isso que servem os saltos, pra me manter soberana, sempre em pé em qualquer ocasião. E esse manter-se em pé é tão doloroso. Volto ao livro, à ingenuidade e ao sonho da triste Macabéa, que vive em uma vida sem emoções. Ao menos ela é personagem e protagonista de um livro, eu vivo coadjuvante entre estações, figurante entre documentos e papéis, sobre saltos altos e abaixo do resto, abaixo até mesmo daqueles sonhos que todos sonham.

Nunca me pude ver casada, nunca me pude ver amada, se me pego sonhando me sinto ainda mais abaixo de tudo, os saltos que uso não são altos o suficiente pra me por acima disso.

Usar o salto é disfarce, é tentar se sentir enfim maior que alguma coisa, é poder ter a sensação de ter algo abaixo de você, mas o trem entra no túnel, lá estou eu abaixo de novo, mais baixo ainda. Ah saltos! Ergam-me cada vez mais pra que enfim eu possa ter a sensação de estar sobre alguma coisa. Enquanto os homens têm o ego alto para suspendê-los, as mulheres os saltos. Mas ao contrário de nós, o ego deles não tem o mesmo charme e a mesma beleza de nossos saltos.

Mas finalmente eu desembarco em meu destino. Fecho o livro sem terminá-lo. Os saltos ainda me carregam por toda a parte, atravesso os portões do escritório, quando sento um pouco e me descarrego do peso de minha bolsa e dou uma pausa para meus saltos descansarem, logo me dizem que o chefe queria me ver.

Subo um lance de escadas, o chefe ficava lá em cima, em sua poltrona superior, sem saltos, com os pés sobre nós, nós éramos seus saltos, que tínhamos que carregá-lo para onde fosse. Lá em cima estava ele e por trás de uma porta de vidro que escrevia com letras garrafais o seu próprio nome, ali estava ele, suspenso, erguido por aquelas letras como se aqueles fossem também seus saltos.

Olha-me por cima mesmo estando sentado, pede para que eu me sente, para me olhar mais de cima ainda, cospe palavras sobre mim, me atira papéis. Fico em silêncio, só observo o movimento de sua boca, sei que ele fala, grita, mas eu só noto o movimento daqueles lábios e aceno com a cabeça. Abaixo minha cabeça. Desço minha alma e minha vida e fico ali aguentando aquelas palavras, mesmo de saltos nunca me senti tão pequena, tão minúscula, tão baixa.

Volto à mesa em que trabalho, carregando pilhas de papéis, esses tenho que ler nesse instante, não terei viagens para saborear da leitura. Esses papéis estão cheios de importância, não sei para quem, mas são extremamente importantes. As páginas do livro de Clarice são apenas desperdício do meu tempo curto.

Tudo estava sobre mim e eu, abaixo, só ficava acima dos meus saltos. Coloco o sobretudo sobre a mesa, e sobre a mesa estava toda a minha carga. Começo a fazer todas as tarefas. Vou ao computador, escrevo, não um livro, apenas documentos, faço contas, chegam mais documentos, almoço rapidamente, não sei o que comi, volto à mesa, o sobretudo ainda em cima dela. Documentos, contas, baixas, chegam mais documentos, intermináveis documentos sobre a mesa sobre mim, todos os assuntos são sobre os documentos e abaixo dos documentos, pois, aqueles papéis são mais importantes que qualquer um naquela sala, exceto apenas se uma das pessoas na sala fosse o chefe, talvez ele seja o único sobre os documentos. Todo o resto é sobre e está abaixo dos documentos.

Acaba-se o trabalho, lá fora ainda faz frio, pego o sobretudo, coloco o sobretudo por sobre mim. De novo vou ao trem, as pessoas ainda conversam sobre coisas fúteis como o capítulo de hoje da novela. Chega novamente sobre os trilhos o trem, sobre o trem meus saltos, depois eu, e sobre mim o sobretudo e todas as outras cargas. Folheio novamente o livro, nada se resolverá na história de Macabéa, nem na minha.

Mais uns instantes em pé, sobre o salto, tanto tempo ele já me agüentou hoje e ele ainda terá uma longa semana pela frente, enquanto eu agüento o sobretudo e todo o resto. Este salto meu único companheiro, o único que me ergue, me suspende, que faz com que eu cresça um pouco mesmo estando tão abaixo.

Chego em casa sem terminar o livro, sem terminar a história. Há coisas mais importantes que nossas histórias, sem que tenhamos nossa hora da estrela. O céu sobre mim está nublado sem estrelas, nada brilha esta noite, e nem nos meus dias. Astros e satélites sobre nós só passeiam, alguns esperam sua hora de estrela, pois, vivem da luz alheia do sol, mas nada brilha no negrume do céu hoje, só se sabe que estão sobre nós, sem ligar para nós. Lá também ficam os Deuses a passear sobre nós e nos observar e serem Deuses apenas por estar sobre nós. Sempre existe algo sobre nós, a maioria das coisas, mas poucas coisas estão abaixo de nós, no meu caso os saltos, que então servem para que eu possa estar acima de algo.

E tudo isso são apenas histórias criadas por outros. Há sempre uma história sobre tudo, como Rodrigo S.M. que cria Macabéa, e este que é invenção de Clarice, e ela como todo artista estará sempre abaixo de toda a sociedade. Sempre existe alguém sobre o outro, e sempre existe uma coisa sobre a outra. Percebo então que no meu caso ninguém iria escrever uma história sobre mim, nem poderia ser criação de nenhum escritor, nem criar alguém para estar abaixo de mim, estava entre, sobre os saltos e abaixo deste sobretudo. Então eu abro a porta tiro o sobretudo e finalmente desço dos meus saltos.

(SAMUEL MACÁRIO In: Sobre Saltos Altos e Outros Passos. 2011)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Soneto Alcoólatra

Acho que já postei esse poema aqui, mas de qualquer forma postarei novamente:

Soneto Alcoólatra


Quero beber-te em mais essa rodada
como litros e litros de cerveja,
mas o licor que em tua taça viceja
é bebida para ser degustada...

A minha boca em excesso deseja
na noite de sexta-feira estrelada
a dose forte que a deixe embriagada,
que é só tua boca quando assim me beija.

Depois de um dia cheio no expediente,
frequento a mesa como um bom cliente.
Que assim seja esta minha bebedeira:

Depois de um dia de tanto corre-e-corre,
da tua imagem vou ficar de porre
em longas doses tomando-te inteira...

(Samuel Macário In: A Ponte Entre o Sol e a Lua.)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Voltando com o poema "As Extremidades da Ponte"

Bom... Muito tempo eu fiquei fora desse cenário, mas uma conversa me fez voltar a postar (pelo menos os poemas). Então lá vai:

AS EXTREMIDADES DA PONTE

Aqui o sol, lá a lua,
lá a manhã, aqui a noite.
O Globo gira
tu vais com o vento vagaroso.

A distância
não tem vias ou viadutos.

Lá o sol aqui a lua,
Aqui manhã lá escurece.
O agir do globo
tu foste em frente fronteiras.

O globo gira...
Sol lá noite aqui. Manhã cá lua distante.
Por oceanos e continentes,
por céu de negrura e claridade

nós separados.

Nessa roda gigante
desse parque sem diversão,
eu aqui tu lá, teu rosto aqui meu pensamento acolá.

(In: A Ponte Entre o Sol e a Lua. Samuel Macário)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Lançamento do livro do meu amigo Jefferson Santana: "Cantos e Desencantos de um Guerreiro"


É com muito prazer que divulgo aqui o lançamento do livro do meu grande amigo de lutas, de poesia, de contos, de aulas e de palavras, Jefferson Santana.
E ver parte desses poemas antes de vê-los nas páginas desse livro é uma grande honra.
Que os Cantos desse Guerreiro possam ser como o brado retumbante de um povo heroíco, que seus desencantos possam representar que jamais este filho foge à luta.

Pra quem se interessar o local e horário do lançamento são:

No dia 02 de Março (Quarta Feira) no Sarau da Cooperifa, ás 20:30.
Rua Bartolomeu dos Santos, 797 - Chácara Santana - São Paulo - SP.

para mais informações visite:

http://guerreiroperiferico.blogspot.com/

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Poemas....

Vou continuar hoje com mais um poema sobre o Amor, do meu novo Trabalho "A Ponte Entre o Sol e a Lua"


Soneto Para o Nosso Canto

Em mais um verso se perde a voz minha
e eu a encontro em algum canto teu
sobre tua boca, teu corpo, sozinha
pairando como se tu fosses céu.

E em mais uma tão velha tênue linha
tecendo o verso que em folha morreu
o poema lentamente caminha
e te dize já choroso este Adeus...

Mas, das cinzas, como a fênix sagrada
meu canto se encontra com o teu canto,
os lábios mudos em doce toada

se encontram e agora somos um. Nós.
Tontos de prazer, e então me levanto
já sem fôlego, e em ti encontro a voz.

(MACÁRIO, Samuel. In: A Ponte Entre o Sol e a Lua, 2010)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Vai Acordar ou Andar a Pé?



Bem, mais uma vez um ano começa e com os mesmos desejos, prosperidades, esperança... Enquanto isso a prefeitura realmente prospera às nossas custas. Mais uma vez a passagem do ônibus aumenta. O preço de ir é 3 reais e o preço de vir é mais 3 reis, seis reais é o preço que o cidadão paga pelo seu “direito”, o direito de se escravizar num trabalho que o mata pouco a pouco.
Mas já não adianta mais falarmos sobre os aumentos que são uma constante em nossa cidade, o prefeito sempre nos dá de presente de Natal atrasado esses aumentos.
Mas não foi o preço que aumentou, pelo jeito também aumentou a espera pelo transporte público, que anda de mal a pior, ou nem anda pelo trânsito que temos.
Mas quem liga, se você tira seu carro da garagem não tem que se preocupar, muito menos o Sr. Kassab que passeia nalgum conversível a custa de dinheiro público, esses 3 reais que pagamos duas vezes por dia pelo nosso direito de ir e vir.
E pagando o preço de um transporte de qualidade, com direito a ar condicionado, lugar sentado num banco muito bem confortável e estofado como sofá de nossa casa e uma viagem de curta duração... que nada!!! Vamos em pé, suando no calor e demoramos horas no caos do trânsito paulistano para enfim chegarmos a nossas casas, detonados. Resta-nos tomar nosso banho (também muito caro por sinal), há quem assiste seu Jornal Nacional (que não está nem aí pra quanto você paga e cobra mais alguns honorários) e finalmente deitamos em nosso travesseiro. Ao fechar os olhos o despertador toca, já é outro dia e mais uma vez pegamos o transporte nosso de cada dia e fazemos o mesmo ciclo que a natureza do dinheiro nos impõe.
Bem você que lê vai pensar, só mais um falando de nosso enfadonho dia-a-dia, os problemas de nossa cidade. Só mais um criticando o abuso da passagem. Mas nada vai se resolver com esse aí que só fala num blog. Daí você esquece e vai pra sua cama e o despertador toca antes mesmo que você note que está com os olhos fechados. Quando é que você vai abri-los?